segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Amigos nas Américas: O Canadá é nosso e há-de ser! (3/3)

... na penúltima jornada tinha subido à mesa 2, pelo que fui seguindo a partida da primeira mesa disputada por dois jogadores com elo superior a 1900 pontos, naturais candidatos à vitória final da prova que era sub-2000 e potenciais adversários meus no jogo decisivo.
 
O Michel Germain, cujo nome já era meu conhecido - este jogador tinha liderado a competição desde o início e o staff técnico apaxe, que analisava profundamente os dados do chess-results, em cada reunião diária lá me lembrava que tinha que lhe tirar o escalpe... -, é um jogador muitíssimo rápido, muito posicional mas virtualmente sem qualquer cálculo.
 
 
Equacionámos, na véspera, a possibilidade de ele pretender empatar, resultado que lhe garantiria o título e que a mim me deixaria nos prémios monetários; por outro lado, se ele ganhasse a partida seria o vencedor isolado, devido ao meio ponto de vantagem que detinha sobre os segundos classificados, o que significaria $ 1000,00 para ele e $ 0,00 para mim.
Face a esta conjuntura classificativa, o staff apaxe, qual conselho tribal, foi taxativo: ou tudo ou nada! Eu anuí, prefigurando um jogo disputado em que tudo poderia acontecer, embora estivesse preparado para travar o peão de F no caso de as coisas se mostrassem complicadas...
 
 
... é que mais vale uns cabelos na mão que um escalpe a voar!
 
No sábado de manhã, à hora marcada para o despertar, o Luís pôs as colunas do acampamento a soar como as do Dragão e o Freddy Mercury acordou-me dizendo que "We are the champions", selecção musical que prosseguiu com o "Eye of the Tiger" e "A Portuguesa"...
 
Só faltou mesmo o "Jogar, Ver, Comer", hino apaxe by Suricata, mas ninguém duvidará que os apaxes estavam prontos para a refrega que o staff técnico - que foi assistir ao encontro in loco (era sábado) - fez tudo o que estava ao seu alcance para que a estória tivesse um final feliz e a bandeira apaxe ficasse espetada no topo das cataratas do Niágara e das Rocky Mountains.

Ao contrário da tradição apaxe, o staff garantiu a chegada atempada ao local de jogo, sentaram-me cinco minutos antes da jornada começar e trouxeram-me um copo de água para ir combatendo a desidratação.


Apenas uma foto para lembrar a Mesa 1 da última jornada do Open do Canadá e deixaram-me para fazer aquilo que naquele momento só eu podia poderia fazer: «cerrar os punhos e ir à luta!» - expressão batida mas que na altura recordei ter-me sido dita uns anos antes num momento pessoal e profissional em que não havia outra hipótese que não tentar fazer as coisas acontecer o melhor possível.

Pés assentes no chão a sentir o conforto das sapatilhas de corrida, casaco já vestido para manter o calor corporal (o ar condicionado era demasiado bom), peças arranjadas nas casas iniciais com um toque de enfant terrible - com os meus Cavalos de costas para o adversário - e um ligeiro momento zen interrompido pelo "Final Round! Start your clocks!" do árbitro.


Estava sozinho na mesa, ponho o relógio a contar para as brancas.

O meu adversário chega dois minutos depois, passo apressado, café, chocolate e uma bolsa na mão. Magro, grisalho e com cerca de 50 anos, veste roupa escura que lhe aguça o olhar.

Cumprimenta-me de forma expedita e começa a debitar lances rapidamente, optando por uma sequência inicial bastante conhecida que não esconde aquilo ao que vem:

1. e4 e5 2. Cf3 Cc6 3. Bc4 Bc5 4. c3 Cf6 5. d3



As brancas optam por jogar a Abertura Italiana, variante Giuco Pianissimo ("jogo calmíssimo", em italiano), através da qual pretendem desenvolver as suas peças calmamente, evitar o confronto imediato dos exércitos e efectuar uma abordagem posicional ao jogo, opção que tem a reputação de originar muitos empates.

Não fico desconfortável com esta escolha: trata-se de uma das primeiras aberturas que me ensinaram e cujos princípios básicos são simples: colocar os Cavalos no centro, os Bispos em boas diagonais, proteger o Rei através de roque pequeno e depois reagir ao avanço das Brancas na ala de Dama (b2-b4-b5) com a ruptura do centro ou, no caso de este ficar bloqueado, ir para a jugular através de um ataque ao roque branco na ala de Rei.

5. ... d6 6. 0-0 Bg4 7. Cbd2 0-0 8. h3


Primeira decisão da partida: atacado o Bispo, para onde recuar?
Para h5, mantendo a pregagem do Cavalo em f3, mas estando sujeito à pressão branca (b4, a4, g4) ainda que com jogo igual?
Ou procurar já criar desequilíbrios, recuar para a casa e6, o que pode abrir a coluna F para a Torre e outras peças de ataque negras, ainda que concedendo potenciais alvos em b7 ou f6?

Considerando a experiência do meu adversário, o facto de esta jornada ser às 11:00 horas quando as anteriores haviam sido às 18:00 (a alteração da rotina poderia ter implicado menos horas de sono para o adversário) e a sua aparente predisposição para jogar muito rapidamente (com menos cálculo), optei por propor a abertura das hostilidades, o que as Brancas prontamente aceitaram:

8. ... Be6 9. Bxe6 fxe6


Aceitaram mas com segundas intenções!
Sabendo que o ataque às debilidades minha posição lhe podia dar um ascendente, o meu adversário jogou no tabuleiro
10. Db3

... e também jogou um mind game com certa postura teatral:
 
«I offer you a draw. And I think I will not do it again.»
 
"Olha-m'este!", pensei eu depois de ter sentido alguma prepotência naquela segunda parte.
"Hás-de querê-las e num tê-las...", disse para os meus botões quando o olhei nos olhos e percebi que ele estava ali para empatar, mais do que para ganhar.
 
Surpreendi-o mantendo a boca fechada, imergindo de novo na posição, declinando a proposta de empate com 10. ... Dc8, jogada com a qual a Dama negra ficava presa à defesa dos peões de b7 e c6.
 
Seguiu-se 11. Cc4 que abre uma via verde para o desenvolvimento do Bispo de c1 e eu mantive o plano inicial de atacar na ala de Rei no caso de o centro estar inacessível.
 
Joguei 11. ... Ch5, com ideia de o colocar em f4 de onde teria vistas invejáveis sobre g2 e h3.
 


O oponente respondeu com 12. Be3, procurando uma posição simétrica e, portanto, mais estável e empatativa, o que recusei, recuando o Bispo para b6 que também liberta a Dama negra da protecção do peão b7.



As Brancas fazem o seu jogo e simplificam a partida com 13. Cxb6, eliminando o Bispo que estava na mesma diagonal que o seu Rei, e as Negras respondem com 13. ... axb6, igualando o material e abrindo a coluna A para a sua Torre.



O jogo estava igualado e as brancas potenciam mais trocas de material, em busca do meio ponto que perseguem:

14. d4 exd4 15. cxd4 Cf4
 

Até este momento, o meu adversário gastara apenas 8 minutos úteis (considerando que cada jogador ganha 30 segundos com cada jogada), enquanto em já tinha utilizado 30.

Com o meu último lance tinha criado uma ameaça: Cxh3, gxh3, Txf3, ganhando um peão e estragando o muro de protecção do castelo do Rei branco.

As brancas perceberam a ameça e jogaram 16. Rh2, pretendendo responder a Cxh3 com Rxh3, o que lhe daria uma confortável vantagem material, pois as negras ficariam sem um Cavalo (3 pontos) ganhando apenas um peão (1 ponto), e não tinham ataque que impedisse o Rei de voltar ao seu resguardo (o Rei branco poderia ir de h3 para h2 e depois para g1 sem que as negras nada pudessem fazer). [O nível do comentário está baixo para os Amigos de Urgezes, mas é a pensar nos Amigos de Loulé]

Nesta altura, antes de ir para o roque branco "rapidamente e em força", decidi proteger melhor o meu Rei e afastá-lo da diagonal onde se encontrava também a Dama branca com 16. ... Rh8.


Com o peão b7 fora de alcance e o de e6 menos apetecível (com a última jogada das negras, o peão deixou de estar pregado e, com mobilidade, é uma presa mais difícil porque pode não estar quieta), as Brancas decidiram reciclar a posição da Dama, pondo-a em movimento com destino à ala do Rei, com 17. Dd1.

Como esta jogada não me criou nenhuma ameaça - as jogadas em que se recuam peças normalmente não são os melhores! -, decidi tentar obter a iniciativa do jogo com 17. ... e5.



A jogada 17. ... e5:
a) disputa a casa d4 no centro do tabuleiro;
b) dá protecção ao Cf4; e
c) abre a diagonal c8-h3, passando a Dama a auxiliar o Cavalo na pressão ao peão h3.

As brancas descuram este último efeito (seta vermelha na imagem) e jogaram 18. Dd2, aumentando a pressão sobre o meu Cf4 mas diminuindo a defesa do seu próprio Cavalo que passou a estar defendido apenas pelo peão de g2.


Agora o peão de g2 está sobrecarregado: tem que defender quer o peão h3 quer o Cavalo f3.
(o Rei não pode ajudar a defender h3 porque ficaria em xeque...)

Como está essa memória?
Alguma ideia sobre a melhor continuação para as brancas?
- a solução está 3 imagens acima! -

Um intervalo enquanto pensam:
Teria sido bastante melhor para as brancas, e pior para mim, em vez de 18. Dd2 jogar 18. d5:

Se compararem esta posição com a anterior, aqui as Brancas continuam com o Cf3 defendido pela Dama, obrigam o meu Cc6 a sair da coluna C e ficam com o peão c7 - que defende o dobrado de b6 - como alvo a atacar.

Regressando à partida:
Encontraram o 18. ... Cxh3?


Agora a posição branca é desconfortável:
 
19. Rxh3 não é legalmente possível por causa da Dc8 que deixaria o Rei em xeque; e

19. gxh3 permite Txf3





















com ameaça ao peão de h3, o único protector do Rei branco que ficaria em apuros.

Com duas peças pesadas (Dama e Torre) tão perto do Rei branco, há a possibilidade de utilizar a técnica das escadinhas para dar xeque-mate:




A técnica das escadinhas poderia ser utilizada com:
1. ... Dxh3+
2. Rg1 Dg4+
3. Rh2 Tf3#

Por este motivo, na partida, as Brancas não capturaram o Cavalo em h3.
Jogaram antes 19. dxe5, ao que eu respondi com dxe5, mantendo a pressão:



As negras mantêm a pressão com as suas Torres que estão em colunas com muito espaço:
- por um lado, se gxh3 Txf3 com muito ataque, como vimos;
- por outro, a Ta8 mantém a Ta1 presa à defesa do peão de a2.

Possivelmente para jogar depois Tad1 (colocando a Torre que não está a fazer nada na coluna D que está aberta) sem perder o peão de a2 que ficaria desprotegido, as brancas jogaram 20. a3.

As negras, satisfeitas com o pecúlio pilhado de um peão (1 ponto), deram ordens para o reagrupamento das suas forças (o xadrez é um jogo de equipa), de modo a preparar novo ataque com mais participantes, recuando o Cavalo com 20. ... Cf4.


Neste momento as negras estão melhores no tabuleiro, embora a ainda distantes 20 lances do controlo de tempo e o mostrador das brancas mostra 1:19 horas disponíveis contra 0:30 minutos das negras.

Nas próximas 20 jogadas só poderia gastar cerca de 2 minutos por lance, sob pena de poder perder a partida, o título e o prémio por causa do tempo.

Uma vez que o Cavalo em f4 estava a ser atacado por duas peças (o Bispo em e3 e a Dama em d2) e defendido também por duas (o peão de e5 e a Torre de f8), as brancas tentaram remover um defensor com 21. Cxe5, capturando um peão (1 ponto).



Aqui as brancas esperam que as negras joguem o normal e imediato Cxe5 (3 pontos), o que deixaria a partida materialmente igual depois de Bxf4 (3 pontos).

Além de recuperarem a desvantagem que tinham de um peão, as brancas ficariam com um plano para tentar executar: o peão da coluna E está passado - não há peões nem na coluna F, na E nem na D -, pelo que, sem opositores directos, as brancas vão tentar fazê-lo chegar à oitava fila e promovê-lo a Dama.

As coisas ficariam desagradáveis para as negras.

Felizmente, o apaxe tirou uma pata de coelho do pescoço e manteve a vantagem de um peão com

22. ... Cxg2

Se 23. Rxg2, Cxe5 dá às negras uma posição em que, além de um peão a mais, o Rei branco está sem protecção, sendo, portanto, um alvo apetecível.

De modo que a alternativa, do ponto de vista defensivo, é eliminar uma peça atacante, de maneira a enfraquecer o ataque, pelo que as brancas jogaram 23. Cxc6.


Muito satisfeito com o desenrolar dos acontecimentos, tento procurar a maneira de transformar a vantagem em vitória.
Como "Quem tem vantagem material quer trocar peças e não peões", dada a vantagem de um peão estou a equacionar jogar 23. ... Cxe3 que, como ameaça a Tf1, tem de ser tomada pelas brancas, ao que continuaria com 24. ... bxc6 ...

... com ideias de um ataque ao Rei branco com Tf8-f6-g6(ou h6), Ta8-a5-h4(ou g4) e Dg4 ...

Estou absorto nestas considerações quando um tsunami passa pela cabeça do meu adversário que, sem qualquer aviso prévio, sem falar ou parar o relógio, abre as mãos e estica os braços...


... e foi mais ou menos isto ...

Foram abaixo quase todas as peças dele e algumas minhas, ao mesmo tempo que quebrava o silêncio quase sepulcral da sala para dizer "I'm sick, I'm taking medicins, I shouldn't have been playing this tournament".

Como eram dois braços mas não eram para dar um abraço, olhei para ele mas não abri a boca e, sem resposta imediata, pegou nas trouxas, deu meia-volta e foi à sua vida.
Pus o Rei negro no centro do tabuleiro e comecei a arrumar as minhas peças, recebendo de imediato os parabéns dos jogadores da mesa 2. Entretanto um árbitro veio ajudar a colocar as peças das brancas na posição inicial e, como se aquilo fosse normal - se calhar é... -, só me disse "Congratulations! Don't Forget to mark your score outside".

À saída da sala de jogo vejo o Vasco e o Luís a subirem apressadamente as escadas.
"O que é que aconteceu? O teu adversário entrou e saiu do quarto de banho mas depois desceu as escadas a bufar!"

*

E foi assim, no continente das oportunidades, que um apaxe conquistou a Section C do Canada Open, cujo regulamento não tinha qualquer critério de desempate.


Os jogadores eram ordenados por pontos, depois por elo e finalmente por ordem alfabética.
Quem tinha os mesmos pontos, repartia em partes iguais o bolo monetário.
 
Tive direito a 15 segundos de fama...
... e depois dos xeques, ao cheque...
 
... ao cheque, que aos dólares canadianos foi outra conversa. Levantar o dinheiro sem ter conta nem ser residente no Canadá é outra estória. Só quando fui ao balcão é que percebi por que é que o GM Tiviakov e o GM Maghami, holandês e iraniano não residentes, quiseram receber em cash...
 
*

A prova também acabou bem para a Cláudia, com uma vitória que a deixou na 44.ª posição, com os mesmos três pontos e meio do 42.º, ela que era a 70.ª jogadora do ranking inicial.

A experiência xadrezística terminou com um torneio de rápidas. No Canadá, ao contrário de cá, cada jogador joga de brancas e de negras com o mesmo adversário. Valeu pela possibilidade de testar as minhas aberturas com dois jogadores de 2250+ e outro de 2100+, tendo percebido onde estão algumas falhas, mas também obtido boas posições que por uma única vez me permitiram pontuar.

Nesta prova, na noite do último dia, os 95 sobreviventes estavam de rastos (terminei em 44.º, com 6 em 12). O único incidente da prova - que distribuiu $ 1.000,00 aos 4 primeiros classificados - foi um miúdo de 12 anos que, cansado, insistia com os adversários que nas rápidas não havia cá "peça tocada peça jogada".

Quando não ia na cantiga, o adversário chamava o árbitro que lhe dizia que tinha que jogar a peça tocada e ele, a contragosto, lá jogava... até que decidiu não o fazer. O árbitro declarou então "You lost your game." e o miúdo começa então a choramingar, quase que uivando, deixando o adversário desconfortável e fazendo uma «chess mum» entrar no activo com um xi-coração e uma festa na cabeça.

Debalde!
Muito mais eficaz, ao fim de cerca de um minuto de concerto, foi a gargalhada geral que ecoou na sala e que lá o calou.

E, pronto, em traços gerais foi isto que aconteceu no torneio.

 
O Canadá é nosso e há-de ser!

 
PS:

E esta, hein?


Ah, pois é!
Dois mil cento e onze... 

Agora já sabem por que é que  os Grandes Mestres Tiviakov, Maghami e van Kampen, vencedores da Secção 2400+, e a promessa sub-8, campeã do continente da América do Norte este ano, Julia Kuleshova, vencedora da Secção E, tiram fotografias comigo.

Venha o próximo!

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Amigos nas Américas: o desenrolar do Canadian Open 2014 (2/3)

Continuando com muito atraso...

No final da primeira jornada, o nosso staff técnico fez um tremendo trabalho de recuperação psicológica.


Bastou um belo jantarinho para eu ficar totalmente mentalizado que a minha dolorosa e humilhante derrota tinha sido uma espécie dos nossos típicos Gambitos Sobremesa, e tudo ficou preparado para a inversão dos acontecimentos no dia seguinte, dia de jornada dupla que começou muitíssimo bem com um brunch impecável antes da partida das 11:00 horas.

Como "depressa e bem há pouco quem", o nosso staff técnico, que assumira pela primeira vez tais funções, desconhecia com rigor os poderes da magia apaxe.
 
E como não pouparam esforços para que a situação da primeira jornada se invertesse, o processo de inversão correu bem demais:
 
1) O meu adversário da primeira jornada, que me deu aquela coça que está no outro post, nunca mais apareceu no torneio e acabou com um ponto em nove (ou então, hoje em dia, amassar um apaxe está muito overated, já vale um torneio inteiro!);
 
2) Eu ganhei os dois jogos de domingo, recuperei a confiança e ganhei alguma forma;
 
3) A Cláudia também inverteu e depois do início vitorioso, empatou um jogo em que estivera melhor e, já sem resistência para a partida da tarde, foi batida por Guipi Bopala, uma promessa do xadrez canadiano com 7 anos e 2 semanas (o rigor etário das crianças é tramado! Pior só a sinceridade: depois de precisar a idade à semana, à pergunta "O teu jogo com ela, como foi?", limitou-se a olhar para o pai, encolher os ombros e fazer uma careta ao mesmo tempo que dizia "Fácil!".

Eis os destaques da ronda dupla:

Ronda 2

Cláudia vs Daniel Brossard

 
As Brancas jogaram Dxd8.
 
Te6 prometia coisas melhores :)
 
As coisas evoluíram e...

 
As Negras jogam Re6 e o final de torres vai acabar empatado.


Tiago vs Shao Hang He


42. a6 Bxa6
e o xeque intermédio resolve:
43. Bf6+ Bg7
e o Bispo bom entra em cena para ganhar o final
44.Bxe6 h6 45. Bxf5


Ronda 3

Guipi Bopala - Cláudia


Aquele Cb4 está mesmo a pedi-las e o miúdo dos 7 anos e 2 semanas não perdoa...
7. Da4+ Cc6
8. Bxf6 exf6
9. d5 (sayonara Cavalinho!)


Alexander Young vs Tiago


A posição branca não é famosa mas elas decidem fazer all in!
15. h4?? hxg5
16. hxg5 Dh5+
e não há mesmo mate para ninguém!


Esta cansativo dia de jornada dupla - não consigo gostar deste sistema que poupa um dia à competição (e dinheiro à organização e aos participantes - quem gostar, tem um óptimo em Lisboa, no Natal, organizado pelo Carlos Carneiro), mas obriga a dedicar entre 6 a 10 horas de um dia à jogatina, pouco mais sobrando para o extra-xadrez que, paradoxalmente, é o que leva alguns jogadores a participar nestas provas - foi duro também para a organização, não se vá pensando que há coisas que só acontecem neste rectângulo à beira-mar plantado.
 
Sem antecipar o que aconteceu no último dia, quer o modo como terminou a minha partida, quer o modo como um miúdo de 12 anos cedeu à pressão no torneio de rápidas e reagiu à derrota declarada pelo árbitro com um urro digno de um cabrito desmamado, o início da terceira ronda da minha secção não só se atrasou mais de uma hora, como o ritmo da partida foi alterado do regulamentar 90 minutos para 40 lances mais 30 minutos KO, com incremento de 30 segundos por lance desde o início, para 90 minutos + 30 segundos / KO.
 
 
De qualquer modo, foi falha que não estragou a festa e o tempo livre serviu para deixar de alugar relógios (Em Roma sê romano, de maneira que comprámos um DGT North American Edition para levar debaixo do braço para o tabuleiro), perceber o nível de dedicação das chess mums que pouco percebem de tácticos e estratégias mas dominam muito bem - e com que entusiasmo! - os critérios de emparceiramento e os níveis ideais de açucar no sangue dos seus jovens competidores.


Para a quarta jornada, segunda-feira, o nosso staff técnico adiantou-nos instruções detalhadas que nos permitissem sobreviver ao dia em que, pela primeira vez, estaríamos por nossa conta e risco, em virtude das obrigações profissionais de quem não estava de férias.
O programa das festas, muito científico e cuidadosamente construído, incluía 5 kms diários de bicicleta e mais uns quantos a pé, várias refeições leves por dia em locais sugeridos, bem como diversos spots turísticos para ir apreciando durante o caminho. O contacto entre a comitiva estava sempre assegurado por telefone e internet durante o dia, e à noite tinha lugar a reunião da tribo canadiana que depois remetia o relatório para Portugal.

 

No que diz respeito à nossa performance desportiva, a quarta jornada encontrou-nos perfeitamente preparados. Entrámos no F. Queen Elizabeth Hotel com o nosso próprio relógio na mochila, um agasalho para combater o ar condicionado e calçado que fazia sentir que tínhamos chegado ao local de jogo de carro, que não com vários quilómetros de bicicleta e marcha nas pernas. Estávamos completamente inseridos no meio, pois ao lado de um senhor que caminhava com um cajado, de um gigante de dois metros, cabelos grisalhos pelos ombros, calções, sandálias e um saco de pano pendurado ao pescoço, este apaxe apresentava-se com umas nike de corrida verde flurescente, pólo colorido e um casaco com letras multicolores a dizer "Life is better in Algarve".


 
A Cláudia, que só por uma vez não teve que aguardar que eu terminasse o meu jogo, fez muito facilmente uma série de amigos, desde a catraiada que lhe levava as peças e nos dias seguintes lhe agradeciam os festins com "hi fives" por entre correrias e a descida das escadas rolantes através do corrimão, até aos mais velhos com os quais partilhava as mesmas dores de serem trucidados por miudagem que por mal saber escrever, apontava as partidas graficamente com gadgets electrónicos como o Mon Roi. De entre estes, destaca-se o John, responsável pelo site www.toplessmontreal.com (a este podem aceder à confiança que, apesar do domínio, o conteúdo, embora descapotável, é diferente do referido no post anterior), que foi experimentar jogar um torneio de xadrez para descobrir melhor o jogo e verificar as reacções das pessoas em situação de competição e stress.

Fisicamente activos e socialmente integrados, os nossos jogos fluiram naturalmente, tendo a Cláudia conseguido culminar o seu ataque num xeque-mate e eu, apesar de não ter encontrado esse caminho vitorioso, travei uma boa batalha com o David Pena Frasier - creio que foi a minha partida mais interessante, embora a minha técnica não se tenha mostrado suficientemente desenvolvida para a vantagem de um peão ter frutificado em mais que na divisão do ponto que pontuou um justo empate.


As negras tentam um truque:
28. ... d4
(se 29. cxd4 Txc1 é mate!)
Mas a Cláudia está em forma...
29. Df5!
(ameaça mate em h7 ou capturar a Tc8) 

Loading embedded chess game...

A segunda-feira correu de tal modo bem que não houve qualquer resistência em adoptar a mesma rotina no resto da semana.
Completamente fãs da cidade, os dias seguintes gozaram-se com revigorante tranquilidade. O sistema público de bicicletas, conjugado com as centenas de quilómetros que lhe são dedicados e articulado com o funcionamento pontual dos autocarros e a eficiente rede de metro, fazem com que a mobilidade nunca seja um problema. A sociedade está muito bem estruturada e embora me tenha parecido ver mais pedintes que no ano passado (ainda assim, nada comparado com o que se passa em Portugal), continua a ser marcante como a generalidade das indústrias (restauração, vestuário, hotelaria, comércio...) emprega pessoas com mais de 50 anos, sendo igualmente impressionante o elevado número de bébes e crianças que passeiam e brincam com os pais nas ruas e nos jardins a partir das 16:30 horas.
Apesar de as pessoas trabalharem o mesmo número de horas em Montreal que se trabalha em Portugal, o dia de trabalho começa antes das 9:00 e termina por volta das 17:00, o que permite usufruir - e muito - a cidade, seja através do desporto (jogging, ciclismo e skate, mas também ténis, futebol e... vólei de praia!) nos diversos parques e jardins nos quais os esquilos vivem à vontade e os cães têm amplas zonas vedadas que lhes são dedicadas, seja através dos piqueniques - são às dezenas, todos os dias em todos os parques.
 
Ronda 5
 
Alexandre Carou (Roménia) vs Cláudia
 
 
Os dois intervenientes noutro dia, daí as cores trocadas.

 
A Cláudia tentou simplificar e propôs a troca dos Cavalos.
O Alexandre faz de conta que não vê...
21. Df3
E a gulosa vai ao pote...
21. ... Cxc3
22. Dxf7+ Rh8
23. Dxe8#
 
Perdeu mas foi de barriga cheia!
 

Edward Selling (EUA) vs Tiago

 
As brancas decidem começar o festival das trocas...
... e as negras agradecem.
 
11. c5? bxc5
12. Bxe4?? fxe4
13. Ce5 Bxe5
14. dxe5 axb3
15. Cxb3

 
agora é ir empurrando e comendo...
 
15. ... c4
16. Cd4 Txa2
17. Ta1 Txa1
18. Bxa1

 
empurrar...
 
18. ... c5
19. Cc2 Da5+
20. Rf1 Cc6
21. f4 exf3
22. gxf3 

 
... e comer
 
22. ... d4
23. exd4 cxd4
24. Bxd4 Cxd4
25. Cxd4 Da1+
 
0-1


O bom nível de vida generalizado é também visível no facto de nesta cidade com cerca de um milhão e meio de habitantes as bicicletas ficarem estacionadas na rua e não desaparecerem com frequência, as portas das casas estarem muitas vezes entreabertas e as janelas não se encontrarem frequentemente protegidas por cortinados.
Para este modo de vida deve contribuir o facto de os serviços públicos de prevenção e segurança estarem bem equipados e funcionarem: bombeiros e polícias conduzem verdadeiros aviões, têm porte atlético e estão amplamente equipados, além de levarem a sério o cumprimento do seu serviço - vi um sinaleiro autuar um peão que atravessou na passadeira mas em desobediência ao apito.

Ronda 6:

Na entrada para a recta final da prova:
- A Cláudia estava com 2,5/5, o que a deixava no grupo dos 29.º em 72 participantes (era a n.º 70 do ranking inicial da secção E);
- Eu tinha 3,5/5 e devia estar no grupo dos 13.º classificados. A secção C tinha 98 jogadores e eu era o 21.º do ranking inicial.

Laurianne Roussel vs Cláudia

 
A energia da Cláudia estava a dar de si nesta fase do campeonato...
Para defender a pregagem, as brancas jogam
11. Be2
e as negras complicam com
11. ... c5
12. Cxd4 cxd4
13. Cb5 e as negras esquecem-se do Bg4
13. ... Bc5?
14. Bxg4 Cxg4
15. Dxg4 ganhando a peça.
 
 
Tiago vs Ronald Moore  

 
Com um peão a mais, quero trocar peças, não fazer uma corrida pelo escalpe...
 
16. ... g4
17. Cc4 Dh5
18. fxg4 Cxg4
19. Dxf5+ Dxf5
20. Txf5
e no final comi os peões negros ;)

Montreal estava repleta de eventos culturais, muitos deles de acesso gratuito. Para terem uma ideia, durante estes dias fomos ao festival "Noites de África", ao "Just for laughs", ao "Mondial des Jeux" e assistimos à competição internacional de fogos de artifício - tudo sem bilhete de entrada.
Quanto a curiosidades, no Canadá os concertos começam às seis e meia da tarde - e as pessoas já vão jantadas! -, e como os arrendamentos anuais são muito frequentes, as pessoas põe no lixo electrodomésticos, mobiliário e utensílios com papéis a dizer "ça marche" que os vizinhos levam para casa para substituir os seus que por sua vez vão para o passeio com igual "funciona"! Outra forma muito habitual de esvaziarem a casa ou os armários é através de vendas de garagem que são anunciadas em folhas A4 manuscritas coladas com fita cola nos postes de electricidade.


Nesta altura do campeonato já estávamos em piloto automático. A Cláudia, mais cansada, teve uma série negra, enquanto eu fui vendo com alguma surpresa que mesmo os oponentes que ainda estavam invictos no torneio, apesar de terem bons instintos atacantes, não tinham grande sentido de perigo e caminhavam com alguma naturalidade para os poços que eu ia cavando...

Ronda 7:

Cláudia vs Ziyi Zhong

 
Com veneno, as negras jogam
10. ... c5
As brancas são uma Apaxe En Passant
11. dxc6
E en passant vai também a Dama branca
11. ... Bxh2+
12. Rxh2 Dxd4
 
 
Christopher Baumgartner (EUA) vs Tiago
Esta vai completa em homenagem ao Josh
 
Loading embedded chess game...

 
Outra informação muito importante: em Montreal a venda de álcool está sujeita a licenciamento e só alguns restaurantes e supermercados é que o vendem. Antes das 5, 6 da tarde só nos vendem uma cerveja se também pedirmos qualquer coisa para comer. Como o vinho é caro, alguns restaurantes têm anunciado nas montras, ao lado dos pratos do dia, «Traz a tua garrafa»!
 
 
Penúltima jornada:
 
Anthony Atanasov vs Cláudia
 
 
 
Aqui fica para quem a perceber :)
 
 
Tiago vs Michael Chang
 
 
mesa 2 na penúltima ronda...
só se pode mentalizar para o escalpe!
 
 
 
Era preciso libertar o potencial branco.
13. e4
e as negras enganam-se
13. ... dxe4?
14. Cxe4 Db6
15. Cfg5 Cgf6
16. dxc5
 
com um peão a mais, avançamos umas jogadas:


22. Cd6 Dxc5
adeus peão?
23. Cxf5 Dxf5
24. Bd6 Dg5
25. Bxf8
olá, torre!  
 
e um pouco mais à frente:

 
28. Tbxf7 Cxf7
29. Txf7 Dd8
30. Td7+
1 - 0
 
Rumo à luta, pelo título!
Com esta vitória ia subir da mesa 2 para terminar o torneio na 1.
 
Todas as incidências no próximo episódio ;)
 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Amigos nas Américas: de Manhattan ao Open do Canadá. (1/3)


Já o poeta dizia qualquer coisa como "O Josh manda, o escriba quer, o post nasce". Depois de ter encomendado a dança APAXE da vitória (quem viu a dele ainda hoje se lembra da sua extraordinária coordenação motora), o mais-Apaxe-de-todos-os-Apaxes, cioso de pormenores sobre o desempenho da Cláudia - afinal ele foi um dos seus parceiros de treino mais habituais nos jogos por correspondência (tal como o Tito, o Afonso e o Jaime) -, lá concluiu que o Open do Canadá "merece uma crónica". Recado recebido, vamos a ela, directamente do A-310 da Air Transat que faz a ligação semanal Montreal-Lisboa-Porto, tal como prometido ao Senhor Machado!
Começando pelo princípio, a ideia de jogar um torneio no Canadá surgiu no Verão do ano passado. Em Agosto de 2013, eu, a Cláudia, a Sara e a Lurdes fomos visitar o Vasco e o Luís a Montreal onde nos apercebemos do potencial xadrezístico da cidade. Além de ser a localidade onde, de acordo com o site do echecsmontreal.ca, seis do seu milhão e meio de habitantes são Grandes Mestres de xadrez (e onde nasceu o nosso conhecido GM Kevin Spraggett que vive(u?) em Portugal), a ligação da cidade ao jogo é visível, por exemplo, em diversas lojas e cafés que dão grande destaque à modalidade.


Apesar de termos visto vários torneios anunciados, como o Open do Québec, nenhum deles se encaixava no nosso calendário de férias. Ainda assim, demos uns xeques na Boutique Stratégic e no Café Pi e, numa visita de fim de semana a Manhattan, a tribo apaxe juntou-se ao New York City Chess Meetup Group e recolheu o escalpe de um nova-iorquino na Trump Tower, técnica que este ano aplicámos a outros estado-unidenses no Open do Canadá.


Avançando para chegar ao que interessa, este ano a marcação das férias foi ligeiramente adaptada de modo a que a visita à tribo canadiana dos apaxes pudesse incluir a participação num torneio. Pela sua calendarização, organização e dimensão, o Open do Canadá foi a prova escolhida: os oito dias de prova lá se encaixaram nos nossos dias de férias; o local de jogo seria no Grand Salon do Fairmont Queen Elizabeth, um hotel de cinco estrelas situado na baixa de Montreal, a cerca de 5 kms do acampamento apaxe; o Open estava dividido em 5 secções, dos sub-1300 aos 2400+, passando pelos sub-2000, o que significava a possibilidade de cada um nós disputar 9 partidas equilibradas; finalmente, este ano o Open do Canadá incorporou o Open do Québec, estando em jogo $25.000, distribuídos por todas as secções e em várias categorias, como melhor sub-1900, melhor jogador sem elo (ranking do xadrez) ou melhor jogadora, o que sempre cria a ilusão de ser possível juntar o útil ao agradável!


Conhecedores do modus operandi da tribo apaxe do Minho, o Vasco e o Luís elevaram a fasquia organizacional para níveis nunca antes sonhados por uma delegação apaxe. Assumindo a pasta da logística, asseguraram um vôo directo (o ano passado, a passagem por Casablanca foi caricata...), a melhor estadia, uma excelente preparação física e psicológica, e uma extraordinária adaptação gastronómica, onde não faltou vinho americano (das Américas, não do nosso proibido!, um dos quais não ficava atrás do Conventual, a bebida energética oficial dos nossos estágios para as provas da Associação de Xadrez de Braga) e a introdução à poutine, uma espécie de batata frita com todos a fazer lembrar as francesinhas da Taberna Belga e de Dume.


Face a este exemplo da tribo do Canadá, umas semanas antes do Open tratámos de fazer uma preparação técnica muito profissional (no critério apaxe, para que não haja enganos). A Cláudia passou a jogar por correspondência com apaxes e não só, por vezes comentando as posições comigo e, não uma, não duas, mas três vezes por semana, em média, resolvia três problemas tácticos! Eu tirei o pó a dois ou três livros da estante, inscrevi-me em dois torneios por correspondência e passei a leitor diário do blog do GM Spraggett («Canada's Top Chess Website»), onde tentava fazer os 5-seconds tactics do dia (às vezes em 5 minutos, outras sem sucesso algum), além de me ir familiarizando com os quiproquós e o who's who do xadrez canadiano (e não só, "vocês sabem do que eu estou a falar", embora tenha logo reconhecido o GM Sambuev quando me cruzei com ele).

Outro exemplo do profissionalismo do Luís, aqui na preparação do acampamento apaxe de Loulé.
Antes do início do torneio, as expectativas na comitiva apaxe iam no sentido de a Cláudia (com o Luís como segundo) lutar pela melhor classificação de um jogador sem elo nos sub-1300 (havia 16 xadrezistas sem presença nos rankings FIDE, CFC, FQE e USCF entre os 72 que se inscreveram nesta secção) e, eventualmente pelo de melhor jogadora, apesar de ela sempre ter dito que a sua meta eram os 3,5 pontos.
Já eu, com o acompanhamento do Vasco, tentaria bater-me pelo lugar de melhor sub-1900, uma vez que era o jogador mais cotado nesta categoria na secção sub-2000 e o 21.º do ranking inicial entre os 98 participantes, isto apesar de esta época só ter jogado uma partida em ritmo clássico, no último fim de semana do Campeonato Nacional da 3.ª Divisão, prova em que a equipa do Grupo Desportivo e Recreativo Amigos de Urgeses conseguiu a subida à 2.ª Divisão nacional que se disputará em 2014/2015, depois de ter vencido a série A em igualdade pontual com o segundo classificado.


Chegados ao local do jogo, o choque de realidades foi devidamente amparado pelo nosso staff técnico: o Luís acompanhou a Cláudia, mesmo no tabuleiro, até ao início da partida, e o Vasco foi o meu tradutor pessoal - em Montreal fala-se francês e inglês indistintamente, por vezes na mesma frase, mas o francês do Québec só por mera coincidência é perceptível a quem apenas domina o básico do europeu... e no Canadá, jogador das brancas que não leve o relógio e esteja nos tabuleiros dos GM especiais (os Grandes Morcões, não confundir com os Mestres), corre o risco de ter que alugar um à organização do torneio ($5, no caso).

Selfie da comitiva apaxe antes do início da primeira jornada.

A primeira jornada confirmou as expectativas iniciais. O Luís e a Cláudia começaram por assustar o adversário (um menino romeno de não mais de 10 anos acompanhado pela avó) com uma longa mas comum frase de circunstância apaxe que remonta há muitos séculos atrás, quando os nossos antepassados tribais comunicavam numa fórmula mais próxima do latim e que actualmente se mantém foneticamente semelhante em português e romeno. É ela a seguinte:

"Com um quilo de carne de vaca e um litro de vinho não se morre de fome!"
 
Descrentes? Podem experimentar à vontade! O GM Mircea Parligras (que está na Noruega para disputar as Olimpíadas de xadrez integrado na selecção romena e que já se disponibilizou a tentar jogar pela nossa equipa urgez'apaxe quando a gente tiver nível para participar numa competição decente), confirma!

Espírito Apaxe na elite do xadrez mundial. Temos que contratar este jogador!
Com o miúdo com certeza ainda a pensar no que lhe pareceu ter ouvido, a Cláudia fez uma grande partida que encheu de confiança a comitiva apaxe - tribo canadiana, como se pode ver pela bandeira que a organização nos atribuiu e que demonstra que o trabalho de adaptação dos apaxes louletanos efectuado pelo nosso staff técnico foi vraiment exceptionnel!

Jogadores intercontinentais com número na federação canadiana (ou do Québec?)
A partida glosou o mote, tendo incluído o sacrifício de um quilo de carne de peão ao 15.º lance que foi fundamental para preparar o barbecue - instrumento muito utilizado nos terraços de Montreal - que criou a possibilidade de concretizar um penalti de um litro de vinho à 21.ª jogada: Cxe6 merece um ponto de exclamação, embora o teor alcoólico da jogada não tenha permitido aproveitar da melhor maneira a resposta das negras. Ora vejam lá:

Play chess online

Enquanto a Cláudia espalhava magia na Secção E, na C eu também explorava a minha condição apaxe, só que em vez de avançar com a faca nos dentes e pintura de guerra, dei ampla liberdade à minha falta de tabuleiro, preguiça e incapacidade de cálculo para experimentar o que o Luís sentiu depois de três viagens consecutivas na La Ronde, o parque de diversões de Montreal.


Para vosso divertimento pessoal, eis a chacina - e em miniatura! - que este vosso GM Grande Morcão sofreu por ter pensado (!verdade!) que não podia proteger o Rei, fazendo roque, no 8.º lance (ah e tal, Cg5, Db3 ou Bc4 e levo duplo em f7... alucinação que demonstra bem a qualidade da preparação e a forma com que cheguei ao torneio).
Play chess online

Continua para a semana com o brutal trabalho de recuperação psicológica do nosso staff!
E para que fiquem com a pulga atrás da orelha, para 2015, ano em que Loulé será cidade europeia do desporto, o staff apaxe disponibilizou-se a marcar as passagens aéreas Porto-Faro no caso de os apaxes minhotos quererem participar em alguma iniciativa algarvia.